Denúncia pode implodir Bolsonaro ao revelar seu envolvimento direto com as rachadinhas
- jul 06, 2021
Segundo a denúncia, o então deputado usava militar da Aman para recolher parte dos salários de seus assessores
A fisiculturista Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada de Jair Bolsonaro, afirmou que ele demitiu um irmão dela, André Siqueira Valle, por ter se recusado a entregar a maior parte do salário de assessor do então deputado federal.
A denúncia foi feita em uma série de reportagens do Uol, feita pela jornalista Juliana Dal Piva, que obteve vários áudios: na primeira, aparece a gravação da ex-cunhada; na segunda, mostra-se que um coronel do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, ao lado do ex-PM Fabrício Queiroz, recolhia os salários dos servidores; na terceira, a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, chama Jair Bolsonaro de "01", indicando-o como chefe do esquema de roubo do dinheiros dos funcionários dos gabinetes do clã.
Leia também: Miranda aponta Ricardo Barros como mentor de pressões no Ministério da Saúde
- As declarações indicam que Jair Bolsonaro participava diretamente da rachadinha, nome popular para uma prática que configura o crime de peculato (mau uso de dinheiro público). A primeira reportagem mostra que familiar que não quis devolver valor combinado do salário foi retirado do esquema - disse a jornalista. Segundo ela, “Andrea Siqueira Valle afirma que Bolsonaro demitiu o irmão dela porque ele se recusou a devolver a maior parte do salário de assessor".
Segundo a jornalista Juliana Dal Piva, o material exclusivo estará disponível no podcast UOL Investiga: "A vida secreta de Jair", que estreia nesta terça-feira (6/7) no UOL e em todas as plataformas de podcast.
Gravações Bombas
As três reportagens foram publicadas na segunda-feira (5/7) na coluna da jornalista e mostra gravações que revelam o que era dito no círculo íntimo e familiar do presidente.
A primeira mostra que um familiar que não quis devolver valor combinado do salário foi retirado do esquema. Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente, afirma que Bolsonaro demitiu o irmão dela porque ele se recusou a devolver a maior parte do salário como assessor. "O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: “Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo".
A segunda reportagem revela que, dentro da família Queiroz, Jair Bolsonaro é o verdadeiro "01." Em troca de mensagens de áudio, a mulher e a filha de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar e Nathália Queiroz, chamam Jair Bolsonaro de "01". Márcia afirma que o presidente "não vai deixar" Queiroz voltar a atuar como antes.
Já a terceira reportagem descreve como recolher salários não era uma tarefa exclusiva de Fabrício Queiroz. A ex-cunhada do presidente diz que um coronel da reserva do Exército, ex-colega do presidente na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), atuou no recolhimento de salários da ex-cunhada de Jair Bolsonaro, no período em que ela constava como assessora do antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.
Presidente sempre negou o esquema
Desde que foi revelado o esquema conhecido como rachadinha, no fim de 2018, Jair Bolsonaro sempre se esquivou do tema ou reagiu com rispidez quando foi questionado. Certa vez, de acordo com o Uol, o presidente chegou a dizer que "se Flávio errou, vai ter de ser punido". Em outra oportunidade, ameaçou agredir um jornalista que perguntou por que Fabrício Queiroz depositou cheques na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
A partir da investigação sobre Flávio Bolsonaro, surgiu o envolvimento de Queiroz e um grupo de pessoas ligadas a ele. Com o avanço do procedimento no MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), que quebrou o sigilo bancário dos investigados, descobriu-se ainda que o esquema envolvia dez familiares de Ana Cristina Valle, segunda mulher de Bolsonaro.
Ainda em 2019, porém, outro procedimento do MP fluminense passou a investigar suspeitas semelhantes no gabinete de Carlos Bolsonaro. Ao todo, a família Bolsonaro empregou 18 parentes de Ana Cristina. Em março passado, o UOL revelou que quatro funcionários do gabinete de Jair Bolsonaro fizeram saques atípicos e que sua ex-mulher ficou com todo o dinheiro existente na conta da irmã que estava nomeada para o gabinete do então deputado federal. Mas nenhum assessor tinha dito até então que era obrigado a devolver parte do salário quando estava nomeado no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados.
Crime extremamente grave
O peculato é um crime contra a administração pública e se caracteriza pela subtração ou apropriação indevida de valores ou bens cometida por um servidor público, a exemplo de parlamentares e membros do governo.
- É um crime extremamente grave. Quando um deputado se apodera de recursos dos salários do funcionário de seu gabinete, ele está furtando ou se apropriando indevidamente de dinheiro público. Pois quem paga este salário é o orçamento público, a sociedade - afirma Roberto Livianu, procurador de Justiça de São Paulo e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção. "Este dinheiro pertence à sociedade e poderia ser investido em saúde, educação. Mas está sendo gasto com a contratação desnecessária de assessores que terão parte dos salários embolsados por um político", acrescentou.



